Bem-Vindo
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terça-feira, 22 de novembro de 2016

Tranformando-te

Eu...
Bom, já estou falando demais. Boa noite!

Pendurada, nos espaços que deixava, tão precisamente...

Me lembra depois de te contar essa estória...

A história ficou sem fim, sem nem começo.

A mais bela poesia...

Quais páginas de fato buscava? Deixou-as em branco.

Eu não quero que você vá.

Mas se ficar jamais será livre...

Isso tudo já está muito estranho.

Bota o café na mesa, sorri (vertigem). A xícara subitamente exerce efeito gravitacional sobre os olhos...

Mas... que bom que ligou.

Pingando de chuva, sorriso misturado com purpurina.

Boa sorte! Quem sabe a gente se esbarra por lá.

Atravessar-te-ia.

(Eu não quero que você fique.)


quarta-feira, 10 de julho de 2013

Olhares


Des Regards

Trocaram um olhar. O que mais trocaram ali? Esperanças, vergonha, incertezas? Devia ser algo de bom, pois apesar de ter abaixado a cabeça, ele sorria. Ela queria sustentar seu olhar. Levante-se... levante-se... parecia que apenas com a força do pensamento aqueles olhos se ergueriam, fixariam de novo aquele par de espelhos cor de mel que ela continha. Pensou vê-lo corar. Ou seria apenas a luz de seus olhos refletindo em sua pele branca? Mesmo de longe sentia algo que os conectava. Luz? Reflexo vermelho? Reflexo cor de mel? Levante-se...

Sabia o que encontrara. Pelo menos naquele momento... aquele sentimento de felicidade tão sutil... Queria sustentar seu olhar... Levantou-se, enfim. Um sorriso. Um sorriso refletido. Assim, pronto. E ali estava a felicidade. Encerrada em alguns minutos, iniciada por nada, morta pelo inevitável final. Final do sorriso, final do sinal. Cruzaram-se, não da maneira como esperava.  E o vento fresco, com cheiro de sol, levou seu precioso olhar... seu encontro foi apenas uma interseção em dois caminhos bem diferentes. Não importava. Vivera mais um momento de alegria. Sempre ficava com vontade de voar, pular no mar, deitar numa cama bem macia, depois desses momentos. Vontades controversas ao que sentia. Se sentia mais pesada, ou seria mais complexa? Algo agregara-se a sua existência. Mais uma pena, mais uma semente aérea. “Qual o peso de um olhar?” Se perguntou. “Bom, eu peso 67 quilos... devo ter muitos.” E com essa inocência de menina, brincando com os cálculos de seu peso e de seu conteúdo, saiu sorrindo.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Coincidências



“Me deixei levar pelo tempo, caminhei sem olhar por onde andava e por coincidência esbarrei em você. Continuei a caminhar, mas dessa vez te levei comigo.”  Anônimo. 

Entrou apressadamente. Não corria, mas mesmo fazendo um esforço para não respirar pela boca, o som de sua respiração pesada a acompanhava. Ao passar pela porta, ficou grata pelo ar-condicionado que a recebeu. Sua amiga Emília a esperava impacientemente. Sua aula havia terminado há mais de meia hora, e esperava somente ela para irem comprar os ingressos de um show. A avistou, a alguns metros afastada, batendo o pé nervosamente no chão. Fixou-a e foi ao seu encontro, não viu quando aquela forma se materializou diante de si.
-Desculpe,  Falou automaticamente.
-Não, eu que peço desculpas, não olhava por onde andava.  Respondeu o rapaz, já voltando a apressar o passo.
Seus olhos desvencilharam-se. Emília se aproximou.
-Vamos?
-Sim sim, desculpe. 

Foi um dia cansativo, não tinha dormido à noite por causa do show que vira, e passou o dia vagando. Biblioteca, sala, cafeteria, sala, rua. Andava de cabeça baixa, com um livro nos braços, pendendo perigosamente. Sentou-se num banco de pedra que ficava encostado no muro de alguma construção qualquer. Estava nos arredores da faculdade, árvores a brindavam com sombra e ar fresco, sentiu vontade de ler. Lia algum romance, um dos muitos que a prendiam em suas tardes tediosas. Saboreava as últimas frases de um capítulo quando sobressaltou-se. Seu coração estava acelerado, posição de alerta. O que foi isso? Alguém jogara alguma coisa do outro lado  do muro, que o acertou exatamente no ponto em que ela se encontrava. Pelo impacto, imaginou que fosse uma bola. Fechou o livro, levantou-se.

Já passava das três quando chegou na casa de uma colega, ela e Emília já a esperavam para fazer um trabalho. Ainda tinha seus fones no ouvido quando foi convidada para sentar. Assim que os tirou, teve a impressão de continuar ouvindo a música. Mas o que? Estava ficando louca ou ligeiramente surda, fazendo com que aquela melodia ainda ecoasse em labirínticos caminhos? Deve ter franzido o cenho enquanto se concentrava nos acordes que ainda tocavam, pois Emília reparou.
-É o vizinho. Ele toca guitarra, deve estar aprendendo essa música, porque a toca desde que eu estou aqui. Não é?  Olhou de soslaio pra sua colega.
-Sim, é o dia inteiro...
-Ah... pensei que não tivesse desligado meu ipod.  Tentou justificar sua surpresa.
Começaram o trabalho.

Deu o sinal do ônibus, equilibrava um caderno com uma mão, enquanto a outra se ocupava de sustentar seu peso enquanto este era jogado para frente. Freios. Viu, enquanto se aproximava de sua parada, um garoto correndo. Ele fez um sinal em sua direção, ao qual o motorista respondeu abrindo a porta de trás. Já saltava o último degrau quando olhou para sua direita e viu aquela forma subindo em um pulo. Pensou já tê-la visto antes... Parada, ali na calçada, olhava para o ônibus que acabara de a deixar pra trás. Janelas corriam e nelas procurava alguma coisa ou alguém. Desistiu, devia ter pensado que viu algum conhecido.

Estava cansada... seus olhos brilhavam, vermelhos. Além do final do semestre que arrancava-lhe suas noites, sentia uma exaustão que não era física, mas espiritual. Sentia-se velha, com já muitos anos vividos, e uma sabedoria que não os acompanhava. Subia agora as escadas do metrô. Corredor, escada, direita. Foi com esses pensamentos em mente que esbarrou naquele (des)conhecido. Pareceu perde-los por instantes, visto que agora seu cérebro se ocupava de outras coisas. Onde? Quando? 
-Desculpe,  Ele falou automaticamente.
-Não, eu que peço desculpas, não olhava por onde andava.  Respondeu-lhe, ainda o encarando.
Seus olhares não se desvencilharam dessa vez. Ficaram ali parados, nessa eternidade que um segundo pode conter. Tinha visto uma vez em um filme duas pessoas anônimas esbarrarem assim. Começaram a conversar, para saírem do modo pré-programado em que viviam. Não queriam mais ser "formigas" na vida dos outros, que, ao bater as antenas, desviam a cabeça e prosseguem com seus caminhos.
-Já te vi antes, não?      Seus pensamentos são cortados.
-Creio que sim...
Seus olhos sorriram, fitando-se.

Um. O apressado, o jogador de bola, o guitarrista, o passageiro de ônibus, o cara do metrô. Dois. 

sábado, 2 de junho de 2012

Metade



"Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio;
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca;
Porque metade de mim é o que eu grito,
Mas a outra metade é silêncio...

Que a música que eu ouço ao longe
Seja linda, ainda que tristeza;
Que o homem que eu amo seja pra sempre amado
Mesmo que distante;
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade...

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
E nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta
A uma mulher inundada de sentimentos;
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo...

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço;
E que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada;
Porque metade de mim é o que penso
Mas a outra metade é um vulcão...

Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo
Se torne ao menos suportável;
Que o espelho reflita em meu rosto
Um doce sorriso que me lembro ter dado na infância;
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
A outra metade eu não sei...

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais;
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço...

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade para faze-la florescer;
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção...

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade... também." Oswaldo Montenegro

Achei esse poema depois de ter escrito o texto abaixo, enquanto procurava imagens para ilustrar o post... Como coube perfeitamente com o que escrevi, inclusive tem o mesmo título, resolvi botar ai em cima.

Metade
Ela queria poder abrir seu peito, e tirar aqu
ela angústia que a corroia. Angústia... talvez a palavra fosse alguma outra, derivada de “dor”. Ela queria poder abrir seu peito, arrancar-lhe o coração e guardá-lo numa caixinha. Talvez assim ele ficasse bem... Ela queria ao menos ter mudado algo, mas sentia que sua nota era sempre a mesma. Estavam regredindo, talvez, em marcha ré menor. Ela queria, ela queria, ela queria... talvez esse fosse o problema... ela queria tantas coisas, invernos agasalhados e com chocolate quente, outonos com estórias lidas num banco qualquer de parque, verões com ondas de espuma batendo nos seus quatro pés, tantas primaveras para ver o florescer das Nenúfares... Depois de tantos meses, as notas desfalesciam como pétalas brancas, murchas, ao chão. Ouvia agora a chuva. Ah! E como ela enchia seu âmago! Ia, rastejando, pingando, formando cavernosos vazios, e os arranjos outrora tocados ecoavam fracos, ficando presos em um ou outro cantos de sua tortuosa mente. Refletia agora (porém não com a mesma luz de antigamente) que nunca tentara gritar em uma gruta. Para onde iam as palavras? Ecoavam até se perderem no vazio, ou permaneciam para sempre trancafiadas em um labirinto de sombras? Não sabia a resposta, mas, a julgar pela persistência daquelas maravilhosas sinfonias em seu interior, acreditava que se perdiam dentre fileiras de negras estalactites e estalagmites, nunca abandonando por completo a gruta.

Ela queria poder pedir desculpas, acreditando que ficariam bem, que não o machucaria de novo. Ela queria poder treinar suas palavras, deixando apenas aquelas mais belas saírem. Ah! Como gostaria de trancar as outras... jogá-las sem piedade em um calabouço, esperando apodrecerem. Mas não o fazia. Por impossibilidade de sua própria personalidade. Criara suas palavras livres, e agora elas lhe fugiam. Retornavam, é verdade, mas sempre carregando um quê meio amargo ou meio ferroso, gosto de sangue. O que fazer? Como não conseguia se impedir de metralhar frases, talvez a solução fosse mover o alvo...

Ela queria saber o que Ele queria. Tinha medo de pensar nisso... tantas vezes já o perguntara, e tantas vezes já sofreu com seu silêncio. A cada sentença não pronunciada, uma pétala caía. Sentia-se, agora, um pedúnculo vazio, desnudado por uma tempestade em plena primavera. Não era a mesma, disso tinha consciência. Cresceu tanto... desde uma semente sem cuidados até desabrochar em uma flor branca. Agora jazia ali, uma flor sem pétalas, uma metade.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

No parque

Uma autora famosa, com certeza. Sorria, enquanto olhava sua obra. Não lembrava ao certo como aquela ideia capturou sua mente... quando viu já estava escrevendo. E que sensação maravilhosa... tão ímpar! Nunca sentira algo assim antes. Claro, escrever era seu hobby, e já tinha feito isso dezenas de vezes, sempre que uma mínima inspiração surgia. Lembrava-se uma vez de estar em um café dentro de uma grande livraria, quando aquele ambiente que misturava o silêncio com o cheiro do café com leite a deu uma ideia. Tímida, no início, mas acabou se desenvolvendo em um grande conto -na sua sempre humilde opinião-. Não tinha onde escrever, estava munida apenas de uma caneta preta, dentre tantas outras coisas inúteis da bolsa. Nenhum papel. Observou, a sua frente, um porta-guardanapos de madeira trançada. A ideia reclamou, mas não teve jeito: acabou moldando-a nos guardanapos mesmo. Só quando chegou em casa é que pôde, finalmente, dar um destino mais nobre à amiga: fez questão de digitá-la no seu laptop, enquanto comia uns chocolates.
  Nessa tarde não seria diferente. Mais uma vez viu-se obrigada a improvisar. Primeiro cogitou se a ideia realmente valeria a pena para dar-se a tanto trabalho, e foi nesse momento que lhe ocorreu outro pensamento: Meu Deus! Essa era a ideia! Sim sim... o que primeiro pensara foi apenas a porta para que algo novo pudesse entrar, para que cogitasse o segundo pensamento... ah! Gostou desse. Ria-se sozinha, saboreando-o. Teve o cuidado de pensar como o botaria em prática, cuidando dos pormenores. Teriam que ser novas, sim, novas e macias. Brancas, ou em tons creme, pensou. Sua caneta preta servia para o trabalho, pois era de nanquim, então garantia uma escrita suave. Finalmente, pôs-se ao trabalho.
  Não levara muito tempo, talvez a parte mais demorada tenha sido o desenvolvimento do plano. Mas a melhor parte... ah! Sobre esta não resta dúvidas: a sensação suave de escrever, a delicadeza que se impusera, o cuidado com que desenhou as letras, o perfume que estava no ar. Como seria maravilhoso se vendessem grandes folhas para se escrever assim! Essa aspiração era boba, quase infantil, mas não consegui deixar de desejá-la. Imaginem só! Grandes maços com folhas assim... suaves, macias. O ato da escrita seria algo angelical...
  Uma autora famosa, com certeza seria um dia. Sorria enquanto olhava sua obra. Talvez umas doze, não mais que isso. Estavam dispostas no banco do parque. Ela mesma estava sentada no chão, com algumas flores murchas em volta das suas pernas cruzadas. Tivera o cuidado de selecionar as doze flores mais novas que achou, procurando só entre as caídas. Tivera, então, a sensação única de escrever em pétalas de flores.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Outra Janela aberta

Bom, esse miniconto eu fiz para um concurso de contos com até 300 caracteres com o tema "Sustentabilidade". Estava certa de que ia ganhar, pq os concorrentes não eram essas coisas, mas depois de ter escrito o conto, vi que o concurso era restrito a certas cidades... u_u *epic fail*
Hoje tava olhando o perfil do face que premiou o ganhador, e vi que o conto ganhador é fraquíssimo XD
é realmente uma pena eu não ter podido participar... [/humildade] ganharia um tablet  ;b 
De qualquer forma, pelo menos fiz um conto novo. Mesmo não gostando de escrever sobre um tema pré definido e com a limitação dos caracteres, até que gostei do meu conto.
Bom, o guardo aqui, nesse blog que é quase uma caixinha de lembranças.









Outra Janela Aberta

 Fechou os olhos, como tantos outros o fizeram e o fazem a todo o momento, na esperança vã de que, ao abri-los novamente, verão aquilo que lhes causa repulsa extinguir-se em um bater de cílios. O menino, de cabelo molhado e face fresca, acabara de jogar uma garrafa vazia de água pela janela do ônibus. Ainda o encarou por alguns segundos antes de fechar os olhos, com um quê de inquisidor no olhar. O menino a ignorou, e continuou a batucar os dedos, ouvindo seu MP4. 
 Sabia que algo deveria mudar, onde estava a preocupação com o ambiente, a consciência de que é preciso tomar atitudes, e que elas não podem ser adiadas? Aquele menino a deixava pasma. Ignorava a já exaurida ideia de sustentabilidade? Não julgava que ele fosse alheio a ela... Não, isso não é possível! Ele simplesmente não acredita que uma garrafinha que jogue no chão tenha uma vida útil de milhares de anos, que ela não é única em sua espécie. Que, várias, juntas, entopem as veias da cidade e poluem oceanos. 
 “Não posso ficar passiva diante de tal atitude...” considerou, enfim.  Abriu os olhos, como tantos outros o fizeram e o fazem a todo momento, na esperança (vã?) de que não seja tarde demais. “Com licença”, começou; O menino virou, espantado. “O que é Sustentabilidade pra você?”. O menino, confiante, citou a definição que aprendera na escola. “Muito bem. Agora pode me dizer por que jogou a garrafa pela janela?”. Segundos de silêncio. “Desculpe.” “Não, meu rapaz, não peça desculpas a mim. Peça desculpa a ela.” “A ela quem?” “À Terra.”. O rapaz baixou a cabeça, murmurou algo inaudível, talvez outro pedido de desculpas, e voltou a levantar a cabeça. Olhava, agora, pela nova janela.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Morte em terceira pessoa

"Ficaram assim, quase abraçados, quase juntos, à beira do tempo ." Saramago
  
Segurava sua mão. Em toda a simplicidade que esse ato encena, mas com um sentimento tão profundo que a fazia prender o ar. A mão dele estava tão quente mas ao mesmo tempo tão inerte, numa rigidez cadavérica que conseguia apagar qualquer sorriso de sua face, pondo um quê de desespero em seus olhos já úmidos. As mãos dela se fechavam em concha em volta de sua pele macia. Ah se ele soubesse o quanto tudo aquilo significava para ela!
   Queria poder chorar, mas a fatiga que as forçadas explicações posteriores causaria aos dois os preservava disso. Sentia seu olhar triste a despindo de todo medo ou cansaço, e seria capaz de lutar com os mais fortes inimigos e de atravessar o mais longo dos mares apenas para fazer um par de olhos sorrir.
   Também não pronunciou uma só palavra. Ficaram assim, mergulhados naquele silêncio negro, cortado apenas pelo som dos pneus percorrendo o asfalto e pelas buzinas incessantes de toda grande cidade. Tinha tanto para falar mas hesitou. Hesitou na inconstância do raciocínio, no abismo das palavras, que figurava-se impossível de atravessar. Era como uma criança, que perde as palavras e põe-se a apontar e emitir sons ininteligíveis, na esperança vã de ser compreendida. Ela também perdera as palavras. Ou talvez nunca as tenha tido, por isso não pode, enfim, usá-las.
   Cansada, deitou sua cabeça no ombro dele e fechou os olhos. Sentiu seu rosto se virando para fitar a janela. Imaginava-se em branco, eu sei. Não confundo porém seu desgosto com apatia... esperava tanta coisa e quão pouco pude lhe dar! Injusto. Um terror agora se apoderava dela, apertou com mais força sua mão, entrelaçando seus dedos nos dele. Foi nessa hora, nessa maravilhosa hora, que a mão antes inerte retribuiu seu afeto, seus dedos escorregaram pelos dela e seguraram sua mão. Virou o rosto e de leve o pôs sobre sua cabeça. Um segundo, um minuto, uma hora, uma eternidade. Eu também te amo. Levantou os olhos para encará-lo, sorrindo. O beijou. Quanta felicidade e esperança de compreensão jaziam nesse beijo! O fitava com toda a transparência de sua alma. Ao ver seu sorriso, enfim respirou.
   Seguravam as mãos. O momento havia chegado. Com cautela, desembaraçou-se de seus dedos, ainda o olhou uma, duas, mil vezes. Boa noite, meu bem. Saltou do carro, ainda amparada pelo seu sorriso, pelo seu maravilhoso sorriso. No espaço semi-cerrado da porta de ferro se fechando, viu seu semblante. Olhos novamente tristes, o sorriso havia se perdido. Fechou a porta e se dirigiu, morta, à sua cama.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Geometria



Geometria


   Sinto-me sólida hoje. Não foi pelo que não digeri, ou talvez sim. De alguma forma estou mais complexa; os planos que me cercam se alteram, mas ultimamente tenho visto muitas figuras esféricas. Talvez tenha ficado um pouco assustada, as planas eram mais fáceis. Cansada... deve ser só isso. Sempre gostei de decifrá-las; as figuras esféricas podem ser tão divertidas! Você as levanta, joga pro alto, segura de novo, rola. E elas continuam da mesma forma: passivamente te encarando, inertes em pensamentos obscuros. Brincar com elas é a melhor parte. São imprevisíveis e podem não voltar mais, uma vez lançadas. Saem rolando por ai, sem um destino certo, pelo menos ao seu ver, e acabam topando em encontros inusitados. Planos em várias dimensões me cercam agora. Sinto que estou inchando, com pensamentos a transbordar. Sempre achei que as coisas ficariam mais claras quando chegasse a esse ponto. Enganei-me. O breu é soberano. Agarro, desesperadamente, as frestras de luz que saem das portas semi-abertas. Ao meu lado estão as esféricas, do outro, não sei. As planas, estas nem estão aqui. Estas, nesse plano, nem são. 
   Cada frestra significa mais do que poderia supor... gosto tanto de colecioná-las! Fazer uma coleção assim, tão ímpar, leva tempo. Tempo e muito esforço, mas acredito ser recompensada. Minha parte favorita é descobrí-las. Escondidas atrás de uma ou outra sombra. Vou esgueirando-me, me aproximo. Espero um pouco e... BAM! Pulo ao seu encontro e as pego nas mãos. Vou guardando tudo, sentindo cada vez mais o inchaço se apoderar de mim. Cultivá-las é mais demorado, mas após lapidadas, brilham tão deslumbrantemente que você pode compartilhá-las, mostrando, incluisive às planas, todo seu esplendor. O que não me avisaram, porém, é que elas não morrem. Eventualmente são substituidas, mas não morrem. Já fazendo parte do meu ser, é impossível desfazer-me delas. E quando tudo o que você quer é um pouco de sombra, pra descansar, elas estão lá, a brilhar e brilhar. Quando você percebe isso, é tarde de mais. Você é uma esférica. Eu sou uma esférica agora.
   Ser esférica dá trabalho e estou fatigada. Queria ficar em um só plano, um simples mesmo, linear. Sinto-me cada vez mais presa num labirinto de senóides e essas curvas estão me enjoando. Cheguei ao topo de uma delas e percebi que tenho medo de altura; Descer parece o caminho mais óbvio a seguir. Mas não poderei simplesmente pular para outro plano? Aquele linear que tanto quero... por favor, por favor, simplifique esses graus! Quero voltar à escala um! Que fiquem as curvas com suas pérfidas esféricas.
   Não me entenda mal... não é que não se possa confiar numa esférica... uma vez em seu âmago são criados laços de difícil rompimento (pelo menos é o que se espera, com uma esférica nunca podemos ter certeza); mas elas podem ser tão fatigantes! Podem rolar e rolar e não sair do lugar. Ainda assim as admiro... as planas, nem isso fazem. Ficam paradas, esperando que alguma força superior as mova, as tire de sua vidinha patética. Ou não. Ou não esperam nada, simplesmente vivem.
   Talvez tal disposição para vida seja realmente invejável... apesar de suas aspirações resumirem-se ao próximo sorriso. Talvez, só talvez, as esféricas sonhem com um dia se tornarem planas novamente, dai todo seu dilema existencial. Apenas por essa noite, desejo ser plana... mas nunca mais voltaremos, pois uma vez infladas não há mais volta. Resumir-me-ei, enfim, a minha geométrica insignificância.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Anjo de prata


Vazio. Era isso o que sentia, ou que não sentia, como queira. Não era solidão, nem tristeza, apenas a ausência de tudo. E convivia muito bem com isso, me sentia completa.
Um dia, porém, o vi na vitrine. Soberbo, imponente, com asas de prata que varriam todos os campos da minha alma. Busto fosco levemente arredondado, rosto para baixo, pecaminoso. Mãos em união rígida e eterna. O véu, também de prata, lhe cobria a silhueta torta, deslizando em ondas sobre seus pés. Senti dentro de mim o vazio se preencher, cheio de dúvidas e angústias. Voltei a apressar o passo.
Numa outra tarde, encontrei-me a fitar, hipnótica, a tal estatueta. Desta vez, uma cortina de chuva escorria pelos céus, lavando todos os pecados terrenos. Me protegia com um guarda-chuva cinza, na fria esperança de ser poupada de tal juízo. A vitrine agora chorava, como a estatueta. Senti de súbito o vazio pesar, como um grande buraco negro sugando todas as minhas forças; me apoiei na vitrine, cambaleante, até recuperar o fôlego. Sai.
Na terceira semana, não aguentava mais ficar sem meu anjo, e o comprei por um par de notas. Embrulhado num jornal da semana passada, levado em baixo do braço até meu pequeno e caótico apartamento, lá estava ele. Agora poderia admirá-lo o quanto quisesse, passar horas a fio, filosofando. Quando chegava em casa cansada, ele era meu conforto, minha salvação.
Notei que as pálpebras, apenas riscos no metal fosco, estavam fechadas. Cego, meu anjo era cego. Vagava pela vida com a esperança de guia, rezando para encontrar alento para sua alma. E não é isso o que todos nós fazemos? Sempre em busca de alicerces, que possam nos sustentar, nos ajudar a levantar ou nos impedir de cair? Triste é o ser que vive vagando, solitário, em busca de amparo. Alguns sortudos o encontram na fé irrefutável e irracional, uns o encontram apenas nos outros. E um mundo de sombras disformes se transforma num alegre mundo de rostos sorridentes.
Meu anjo não precisava ser sorridente para ser completo, e ao seu lado conseguia me acalmar. Não é que minhas angustias desaparecessem, pelo contrário, se multiplicavam, mas minha mente se clareava e podia pensar no trânsito contínuo de emoções e sentimentos que me bombardeavam por dentro de maneira opalina e racional. Inquietava-me o espírito ter que deixá-lo e seguir rumo ao meu ofício. Trabalhava em um pequeno escritório de advocacia, bem no centro da cidade. À noite as ruas se enchiam de luzes neon, e letreiros luminosos nos convidavam a beber e dançar. Passava pelas portas escancaradas e convidativas de boates, olhando sempre para as pedras monocromáticas que compunham o mosaico da calçada. Ia em direção ao metrô. Dentro deste, as leis da física sobre dois corpos não poderem ocupar o mesmo espaço não se aplicavam, e jazia pendurada em uma ínfima barra de ferro tentando em vão não me afogar no mar de pessoas. Chegava em casa exausta, e abrigava meu vazio no meu anjo de prata.
Ao conversar com meu anjo, percebi o quanto os seres humanos são desprezíveis. Podem, tão facilmente, fazer outras pessoas sofrerem... mentem, roubam, traem,assassinam. Não... não mais deixarei eles me afetarem, ficarei protegida, abrigada em enormes asas de prata. Que suas asas sejam minha força, meu baluarte. Que eu consiga escapar dos pecados humanos, até ascender ao céu, rezei. Olhei pela janela, o céu não tinha estrelas, apenas núvens acinzentadas; ele padecia, tóxico. Fui, cada vez mais, ficando reclusa em meu apartamento, com apenas a companhia do meu anjo de prata. Enfim as férias de verão chegaram, e posso me ocupar de coisas mais importantes do que pessoas. Gosto de ler sobre mitologia, sobre os antigos ensinamentos, sobre as leis de uma outra época. Leio constantemente para meu anjo, sinto, porém, que é ele quem está, na verdade, lendo para mim. Quase consigo ouvir sua voz... suave, ritmada, gentil. Não abre os olhos, não lê as letrinhas negras em linhas, apenas sabe-as. Devoraste-as em épocas anciãs, e agora compartilha suas histórias comigo.
Acabei adormecendo; não que fizesse muita diferença, posto que a vida encontra-se cercada de ilusórios sussurros e plumas. Sonhei com um corredor, tão alto que não conseguia ver o teto... talvez fosse o céu. Talvez. As paredes de mármore falavam entre si na lingua dos anjos, sem deixar-me entender nada. Por que fazem isso comigo? Não sou amiga dos anjos? Não dei meu fraco coração a um par de asas de prata? Irrito-me. Esmurro com força as paredes, ouço risadas. Uma presença invisível me consome, deixa-me em alerta, toda arrepiada. Corro. Risos, risos, risos. Chego ao fim do dantesco corredor, e lá está ele, a me esperar, numa sacada de um metal brilhante. Abre, enfim, os olhos. Olhos de prata, como o esperado, fitam-me hipnoticamente. Atrás de si jaz o céu e apenas o céu. Estrelas brilham mas não há lua a vista. Estende, em toda sua majestude, suas asas de prata. E não está mais na sacada, ou no corredor de mármore, está no infinito negro. Suas asas rígidas não se movem, e vejo-me a saltar em sua direção, numa tentativa frenética de ajudá-lo. Caindo, caindo....
Seus olhos estão fechados agora. Gotas escuras mancham suas asas. Elas não poderiam mais me proteger, mas agora iria com elas para longe. Para bem longe dali, onde ficaria em sua companhia para sempre. Sinto-me entorpecida... as risadas viraram gritos, gritos de horror. Infelizes pessoas que não têm seus próprios anjos... gritem, podem gritar. Debilmente, estendo minha mão para acariciar a face lisa e fria do enviado dos céus. Uma estranha coloração carmim segue meus dedos trêmulos enquanto percorro o caminho de sua face até a ponta do queixo. Durma, durma meu anjo....

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Conto de Fadas


Pequeno botão
Era uma vez um pequeno botão de gardênia, que vivia embaixo de uma grande árvore. Lânguida, lutava para receber algumas poucas gotas de Sol. Em uma tarde ensolarada para o mundo e sombreada para ela, veio seu príncipe. Não era nobre, andava com vestes rotas e sujas, com uma sandália de couro. Andava, porém, olhando para o céu, para o infinito azul, onde nuvens de todas as formas e tamanhos andavam juntas, em perfeita harmonia. Ah! como gostaria que assim fosse a Terra! Assoviava uma música qualquer de bailes. Quando passou ao lado da grande árvore onde padecia o pequeno botão, ouviu um murmúrio, uma flébil dolência. Deteu-se e olhou para baixo. Viu o pequeno botão, de cor doente, folhas tombadas.
Foi quando ouviu uma surdina:

"Nasci aqui da Flor mais alva, branca como as asas de um anjo,
nasci aqui e com pequenas joaninhas brinquei
nasci aqui e nas gélidas noites, nas gramíneas me embalei
nasci aqui e quando o Sol, vier, enfim, 
me beijar as faces, um último suspiro darei
nasci aqui e aqui hei de morrer..."
Consternado com a dor da pequena flor, o príncipe camponês subiu na grande árvore, e moveu uns ramos de lugar. Ondas de Sol agora pulsavam na direção do botão, que já sentia suas forças se renovando. Quando seu príncipe desceu dos ramos, o botão pôde, enfim, agradecer ao seu salvador. Meio sem jeito, começaram uma conversa. Esta durou a terde toda, o príncipe lhe falava dos imponentes castelos, dos enormes jardins que havia em seu reino, e o botão lhe falava do seu minúsculo mundo, da conversa das formigas, das serenatas das cigarras, das danças da grama. O príncipe ouviu maravilhado, percebendo a magnificência de um mundo antes ignorado. O botão ouviu encantado, com o desejo de poder andar, de poder conhecer além de seu pequeno horizonte formado por duas pedras lascadas.
O camponês e o botão se tornaram grandes amigos, e toda tarde discutiam sobre a vida, o céu, seus mundos ao mesmo tempo tão distantes e tão integrados. O pequeno botão sentia que sua força agora não vinha do Sol, mas de seu príncipe. Suas folhas estremeciam sempre que ele se aproximava, e, quando ele deitava ao seu lado, com seus lábios virados para suas delicadas pétalas, sentia o vento parar, e uma onda de emoção edênica se apoderava de seu frágil corpinho. Como poderia, porém, seu príncipe sentir o mesmo? Não sentia nem seu perfume, pois este ainda não brotara. O que era um miúdo botão de flor para ele? Algo tão insignificante, que nem valia a pena colher.
No dia seguinte, o pequeno botão estava triste, murcho; o camponês se aproximou, perguntando o que havia acontecido. "Todo dia vejo moças de vestidos longos correndo pelo Sol... Ah! como as invejo! Gostaria de ser bonita como elas, de poder correr como o vento, de me enfeitar com laços e rir alto..." seu príncipe parou um minuto para pensar. "Como você está enganada! Acha que elas são belas, mas não vê que se inspiram nas flores... vestidos longos como pétalas, perfumes de lírios, cabelos esvoaçantes... você não precisa de nada disso, sua beleza é natural e ainda está por desabrochar... mas, se deseja tanto ser como as humanas, acho que tem algo que eu posso fazer" ao dizer isso, seu príncipe puxou um fio de seu casaco azul -o melhor que tinha- e o amarrou cuidadosamente em volta do talo da pequenha gardênia, formando um laço. "Pronto! Aí está seu laço! Está muito mais bonita que qualquer garota agora." O pequeno botão não consegue se conter e desaba a chorar; suas lágrimas logo param, ouvindo seu príncipe que agora estava tocando flauta. Deixa-se levar, sente o vento em suas pequenas folhinhas, sente a música ressoando em todo seu ser, ah... volúpico veneno! Êxtase.
Já faz duas semanas que seu príncipe não aparece... ah que saudade de sua música, do calor de sua fala! Não adiantava sonhar com o céu, quando sua maldita sina a aprisionava ao chão. Resolveu ficar forte, crescer e se tornar tão bela e alva quanto as nuvens, iria impressionar seu príncipe quando ele voltasse...
Em uma tarde, cortaram a árvore que lhe sombreava, e o botão se via agora em um enorme campo, com bastante vento e luz para crescer; não demorou muito para que suas pétalas antes rotas, abrissem-se em forma de asas marfíneas, dando delicadas voltas no ar. O laço azul continuava amarrado em seu talo, logo abaixo de suas mádidas pétalas. Dançava, orgulhosa, com os vívidos tons de verde da grama, e não viu a moça de vestido esvoaçante ou seu companheiro de casaco azul que se aproximavam lentamente.
"Como és linda! Tens a cor da Lua e o perfume das flores!" "Prove que me ama, traga-me a coisa mais bela que achar, quero-a para mim!". Como é tolo homem apaixonado... move céu e terra pelo seu amor, sem saber que tudo o que precisa mover é um coração, somente. Quando o camponês viu aquela vaporosa forma branca dançando ao vento, sabia que não acharia nada mais lindo; "Levarei essa flor de Gardênia para minha princesa". Viu seu príncipe se aproximando, quase não se continha de alegria, e foi quando sentiu um puxão, e aos poucos sua vida se esvaindo...
O camponês ofereceu a flor desfalecida a sua amada, que a pegou e cheirou. Não podia parar de sorrir, tão bela! Foi quando seus longos dedos encontraram algo que não deveria estar ali... "Isso é um laço...?" já havia começado a puxar o fio azul quando seu enamorado deu um grito de horror. Arrancou a flor de suas mãos, verificou o fio. "Não! não é possível! você era só um botão... um botão muito triste na sombra de uma árvore!" soluçava; com tal agitação a flor acordou. Quase sem vida, pode apenas murmurar suas últimas palavras:
"Não chore, meu príncipe. Se do meu destino não esperava muita coisa, você me deu a alegria de sonhar, e fico feliz por te ajudar a encantar alguém. Meu amor não é egoísta, quero que viva feliz, que corra com o vento e nunca se deixe abater por sombra alguma..."
Até hoje pode ser visto um grande jardim de gardênias naquele reino, cuidado por um casal ainda apaixonado.

sábado, 4 de setembro de 2010

Uma rosa rara


Uma rosa rara
Lá estava ela. Toda manhã ela seguia a mesma rotina: calçava a velha e manchada sapatilha de boneca, prendia o cabelo em um rabo de cavalo frouxo, comprava no café da esquina um capuccino quente com adoçante e seguia seu caminho rumo ao sebo em que trabalhava. Era incrível seu conhecimento sobre livros; dos contos excitantes de Sherlock Holmes às aventuras de Narizinho, dos clássicos aos desconhecidos porém, não menos importantes, dos filosóficos aos infantis, conhecia todas as histórias. Pouca gente ia ao sebo, restando-lhe tempo de sobra para mergulhar naquele mar de páginas velhas e amareladas.
Quando passei pela porta da frente, um sininho tocou anunciando minha presença. Um homem franzino e de óculos de fundo de garrafa veio atender-me. Disse-lhe que não procurava nada em especial, só estava dando uma olhada. Ele sorriu e se afastou, voltando à sua bancada empoeirada. Estava enfurnado entre prateleiras, folheando um clássico quando um livro na prateleira a minha frente foi puxado. No estreito espaço formado, dava pra ver seu rosto corado, com olhos castanhos profundos, sorrindo como se pedindo desculpas por tirar minha atenção. Sumiu-se. Algo tão sutil, tão ordinário, causou-me uma estranha sensação de vazio, como se aquele livro não fosse o único a desaparecer. Saí, inquieto, como procurasse por algo que nem eu sabia o que era.
O sino tocou, e o homenzinho não veio me atender. Depois de uma semana, já se acostumara com minha pontual presença. Agora, ia àquele sebo todo final de tarde, e, sempre que o adentrava e a encontrava, a sensação de vazio do meu peito ia embora, e uma lépida emoção me encobria. Quando me via, ela acenava com a cabeça, esboçando um leve sorriso. Eu a cumprimentava, e me perdia entre as tantas estantes de mogno. Às vezes, ela separava um ou dois livros para eu ver, os deixando na bancada do homenzinho. Ledora excepcional! Conseguia, sem dificuldades, ler pessoas também, como fossem livros abertos. Acertava todos os meus gostos; não teve um livro que ela me recomendou que eu não gostasse. Cada vez mais, ela me prendia com seu taciturno e misterioso jeito de ser.
Já perdia a noção do tempo, não sabia mais quantas horas passava entre aqueles livros de capas rasgadas e páginas soltas. Não importava, estava feliz. Ela sempre me acompanhava, só saía quando eu ia embora. Nunca trocamos uma só palavra. Que as deixássemos aos livros, pois estes sim necessitavam delas! Nossa conversação
se baseava em trocas de sinais; um lábio franzido quando o livro errado era escolhido, um sorriso quando a escolha fosse boa. Um olhar ansioso ao término do livro, para saber uma opinião. Troca de olhares. E assim foi passando o tempo, sem nenhuma pressa ou compromisso.
Estava um dia lindo, céu azul, nem quente nem frio. Antes de seguir meu caminho diário, passei em uma floricultura. Ao me ver diante de tantas flores, hesitei. Qual seria a mais apropriada? Pensei nos livros que ela gostava. Nos de romance sempre davam uma rosa vermelha. Clássico. Comprei uma rosa, mas esta era cor de rosa, não vermelha; ninguém gosta de clichês. Quando abri a porta, o sino não tocou. O homenzinho, explicando meu olhar curioso à porta, disse que ele havia caído, e, como fosse de quartzo muito fino, quebrou. Vasculhei os corredores ermos, e nada. Ainda olhei para a bancada, para ver se não era ela que estava cuidando do caixa desta vez.
Depois de uns minutos de espera, o homenzinho, vendo minha aflição, disse que ela vinha. "Não se preocupe, ela com certeza vem. Nesses quatro anos de trabalho, não faltou um dia sequer sem antes telefonar avisando... é, sem dúvida, uma menina rara." Duas horas depois, a certeza do homenzinho havia se esvaído como fumaça.
Segui meu caminho para casa, com a rosa na mão. Pensava, agora, que talvez fosse melhor assim. Eu teria mais tempo... Uma menina tão especial quanto ela merecia uma flor à altura, e uma simples rosa não daria para o gasto. Pensei em comprar uma rosa rara e bela, única como minha flor. Andando tão distraído, não vi quando virei a esquina errada, nem como cheguei àquele café que ficava numa esquina pouco movimentada. Um grupo de pessoas amontoavam uma parte da faixa de pedestres, e me aproximei para saber qual a ocasião. Uma senhora, ainda com lágrimas nos olhos, me contava sobre um acidente terrível, em que um carro desgovernado atropelou uma moça que atravessava a faixa. "A ambulância demorou mais de meia hora! Se tivessem chegado a tempo, a pobre moça poderia ter resistido. O carro fugiu logo em seguida, deixando-a exangue no chão." A tristeza e revolta compartilhada por todos daquele lugar fez sentido para mim. Com a cabeça pesada fui me afastando um pouco. Atravessei a faixa. Estava começando a escurecer, mas algo naquele chão cinza me chamou a atenção; uma sapatilha velha e manchada de sangue jazia perto de um poste.
A rosa caiu de minha mão. A minha flor, tão rara e bela, me fugiu assim, de repente.

sábado, 5 de junho de 2010

Fios perdidos


Fios perdidos
Abro os olhos. Minha cabeça dói... levo a mão à cabeça, mas acabo parando para observá-la. Uma mão de velha, cujas rugas o tempo não esqueceu de cobrar. Em cada vinco que cobre minha pele, um história em formação. Algo me inquieta... não está faltando aquele sentimento de realização? De uma vida cheia de conquistas?Um estranho vazio envolve aquelas mãos e tudo que sinto. A visão desfocada da minha mão dá lugar a uma imagem paralela. Vejo ao meu lado uma jovem de cabelos louros, com olhos cansados e um sorriso na boca. O sorriso mais triste que já vi. Ela me fita esperançosa, e sinto que a qualquer momento possa lhe escapar uma lágrima, dessas que saem no momento errado, numa tentativa frenética e frustrada de auto-controle e força. Observo o ambiente ao meu redor, me vejo em um quarto pequeno e azul; à minha frente encontra-se uma televisão, onde passa uma novela. Sinto olhos fixos em mim, como fossem feixes de luz vidrados em minha direção. A moça começa a me incomodar... pare de me olhar! faço um esforço para prestar atenção à novela, e começo a lembrar da trama. Ah sim! Eu assistia a essa novela... não? Passados alguns minutos, a insistente moça me pergunta com a voz trêmula:
- Precisa de alguma coisa, mamãe?
Sinto que empalideci. Que brincadeira era essa? Quanta ousadia daquela moça! Meu cérebro transbordava de sentimentos controversos, surpresa, raiva, ternura...
Ternura. Esse último começou a crescer, a aflorar de uma maneira até que sinto que é de meu rosto de onde escorrem as lágrimas. Lágrimas ligeiras, fervilhantes de desespero.
- Minha filha, minha filha!
Imagens. Um campo verde, uma casa de tijolos, um pote com flores vermelhas numa janela de um azul desbotado. Minha janela. Crianças correndo uma atrás da outra, uma mão se abanando com um chapéu. Meu chapéu. Uma tarde de verão, um bolo de aniversário, uma menina sorridente. Minha menina. Uma manhã chuvosa perdida no tempo, um beijo de despedida, um asilo. Meu asilo. E a loucura. Ah... a loucura. Minha loucura! Tudo começou com um diagnóstico. Aquela maldição que se apoderava de mim, ia, as poucos, me despedaçando. Não podia suportar diariamente ter que lutar com minha mente... enlouqueci. Meus devaneios são dilacerados por uma voz tão doce...
-Mamãe?
Minhas memórias... elas transbordam de mim, como se eu fosse um copo... que enche tanto, que tudo o que sobra são momentos, vividos em um instante logo perdido. Uma vida sem memórias, uma vida oca e sem sentido. Não fujam de mim! Agarro, desesperadamente, o lençol da cama. Posso não poder mais guardá-las no meu infinito particular, pode faltar-me a razão, mas não me abandonem! se meu cérebro falha, meu coração não me falta, e espaço é o que eu tenho a oferecer... Sim! posso vencer a ciência, posso provar que sou mais forte que essa doença que me consome, me apegarei às minhas lembranças, às minhas preciosas lembranças, e as guardarei em meu coração, onde toda razão foge. Vou relaxando, confiante, sentindo um torpor se apoderar de mim.
Abro os olhos. Uma moça dorme em uma pequena poltrona acolchoada perto de uma janela. A novela que tanto gosto está no final... Aquela moça me chama a atenção, pois por seu rosto serpenteia uma trilha de lágrimas secas. Pobrezinha... o que será que aconteceu?

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